Inspiração



Um bocadinho de mim em palavras soltas, libertas pela digitalização da mente.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Memórias de mim... Pintadas por ti...



Pousas o pincel, exasperado, e olhas a tela. Ao fundo, o som da chuva a bater na janela, acompanha-te os movimentos e, atrevo-me a dizer, também os sentimentos. Constante mas negra. Confortante mas também triste.
O trejeito de lábios que ostentas durante segundos é típico de quando não estás satisfeito. E eu percebo o porquê. O quadro está cheio. Formas. Cores. Porém não há essência. Dinâmica. Emoção nas formas que desenhaste. São apenas conchas bonitas, vazias, sem sentido pintadas em aguarela. Quase como tu és agora.
Pressionas as têmporas com os dedos salpicados de tinta e eu pressinto a enxaqueca que se vai apoderar de ti o resto da noite. O quadro vai ficar ali, pendente, sem esperança de ser acabado, enquanto tu te afundas na poltrona envelhecida que ainda guarda o contorno dos nossos corpos. Até ser outro dia. Um dia melhor.
Preparas-te para começar o teu ritual de recolhimento criativo quando algo te faz parar. Prendes a respiração e algo no quadro, antes apagado na tua mente, te hipnotiza. Estendes a tua mão lentamente e esborratando a última camada de tinta contornas a silhueta de uma mulher. Pintada em tons pastel, sentada numa esplanada, imersa nas páginas da história da vida de outros. O cabelo longo, rebelde que lhe conferiste na tua imaginação não permite ver-lhe os traços do rosto, mas ao vê-la aceno com a cabeça e murmuro a resposta que procuras – “Sim, sou eu”.
Rodas o corpo e encaras a sala atrás de ti. Pensas que me ouviste, porém, o espaço que te envolve continua vazio e o único som que se ouve é a batida que o teu coração falhou. Voltas novamente a tua atenção para a tela colorida, fingindo desinteresse. Desprendimento. O esquecimento de mim que querias possuir.
Fazes-me rir. Continuas a ser um terrível mentiroso. A tua expressão corporal nunca me conseguiu mentir, mesmo quando a tua boca balbuciou palavras ou calou expressões que achas-te ser melhor esconder. E agora ali estás tu. Em estado falso de descontracção, tentando enganar somente a ti próprio. Porque não confessas? Estás alerta, estimulado pela lembrança e esperas que eu surja do vácuo da tua memória e te rodeie os ombros com os meus braços. Que te sussurre ao ouvido a falta que me fizeste durante o dia. Esperas um momento só nosso, em que eu procure nos traços do teu trabalho pedaços meus.
Mas eu já não estou aí. Há muito tempo que parti desse mundo só nosso.
Parti ou nunca existi?
Não fui por acaso um sonho louco que tiveste e do qual demoraste mais tempo a acordar? Não fui eu um extravasar da tua mente criativa e sensível? Uma ilusão que pensaste tocar e possuir?
Apenas te oiço, te vejo, te sinto porque me manténs viva, a teu lado, usando as recordações que se tatuaram na tua mente. Repetiste as minhas palavras vezes sem conta. Ouviste o meu riso e sentiste o meu toque apenas na imaginação. Nem tu consegues decidir se fui ou não real.
 Já não estou aqui. Nunca voltarei a estar.
Afastas a tela antiga e colocas uma nova. Branca. Intocada. Perfeita para o que queres.
 Muito antes de traçares a primeira linha eu já sei o que pretendes fazer. Fechaste os olhos. As rugas de expressão que aparecem confirmam as minhas suspeitas. Estás a tentar chegar até mim. Queres lembrar-te das linhas do meu rosto para me puderes pintar. Sei que te lembras do cheiro do meu perfume com exactidão porque em muitas ocasiões ainda o sentes. Também te recordas de como é a curva da minha cintura, de como se adaptava às tuas mãos. Mas o meu rosto esconde-se no meio de uma névoa trazida pela passagem do tempo.
Não desistes e começas a desenhar. Linhas pretas, de carvão, começam a surgir na tela outrora limpa. Os meus olhos são a tua primeira tentativa. Escuros e infinitos como lhes costumavas chamar, quando me querias cobrir com palavras que traduzissem aquilo que eu era para ti. 
Consigo reconhecer as linhas, porque as vejo quando me olho no espelho. Continuas a ser exímio no teu trabalho, porém falta alguma coisa. O trejeito voltou. Sabes o que não está aí e que nunca conseguirás passar para a tela? A devoção que o meu olhar te dedicava. A perfeição de olhar-te nos olhos e rever-me em ti. E sem isso, esses olhos que marcam a superfície do papel não são os meus.
Tentas os meus lábios. Como é que sei? Enquanto manténs os olhos fechados vais comprimindo os teus lábios um no outro. Sei que são recordações de um beijo à muito dado.
Suavemente, com a mesma delicadeza com que juntavas os teus lábios aos meus, tocas com o carvão na tela já manchada. Ponto a ponto vais construindo as curvas da minha boca. Da tua boca, como dizias orgulhosamente quando ainda te pertencia. Mas subitamente paras. Meneias a cabeça e os ombros descaem. Memórias assim são difíceis de suportar, não são? Voltaste a sentir o quente dos meus lábios na tua pele e a reacção física que provocou assustou-te. Dói querer tanto o que não se pode ter, não é?
Compadeço-me da tua dor mas sei que não posso fazer nada para o mudar. Afinal, sou apenas uma memória de alguém que quiseste. Que tiveste. Que ainda queres. Mas que não pode ser tua. Que vive numa outra corrente do tempo, que se encontrou com a tua, mas que não lhe pertence. Chego-me mais perto e passo a mão nas tuas costas. A tua reacção é imediata e enquanto sentes o arrepio do reconhecimento percorrer-te a pele estendes a mão para me tentares agarrar. O gesto perde-se no nada. Eu não estou aí, lembras-te? Sou apenas uma recordação vaga, presa entre o sonho e a realidade, que gostas de ter.
Desanimado e cansado de mais uma noite em que a minha presença foi mais forte do que a tua vontade de permaneceres são, afundas-te na poltrona e confessas em voz alta, aquilo que há muito tentas assimilar – “A essência do que fomos, do que somos, não se aprisiona em traços desenhados. Em telas pintadas. Em recordações empíricas e etiquetáveis. Reside agora e para sempre no facto de sermos a continuação um do outro.”
E deixas-te ir, num sono profundo, recheado pela minha voz sussurrada.
As lágrimas caem-me por saber que não irei voltar. Que nunca mais te irei sentir. Que nunca mais me procurarás intensamente para fazer parte de ti novamente. Sem saberes, deixaste-me partir.  Devagar chego-me mais perto e beijo-te a fronte. Despeço-me de ti.
 Enquanto isso, no outro lado do mundo, uma mulher, acompanhada pela tua memória, adormece carregando no colo as folhas polvilhadas de letras onde te tentou pintar com palavras. 

11 comentários:

  1. Bom.. sem palavras pode ter duplo sentido de sem e de 100 ;)
    hehehe
    Isto para dizer que gostei muito, está lindo. Tens uma forma de escrever fascinante...pormenorizada, que nos faz sentir que estamos a ver um filme e nao a ler um texto.

    Beijocas
    SAWABONA

    ResponderEliminar
  2. ADOROOOOOOOOOOOO +.+
    Eu não queria ler por ser grande mas ainda bem que o fiz, valeu a pena, como sempre vale *-*
    Ta lindo mana, gostei especialmente da ultima parte...
    está indiscritivel (L)
    Faço minhas as palavras de todas as outras pessoas que comentaram "SEM PALAVRAS" !
    AMO-TE MANA

    ResponderEliminar
  3. Olá Miri adorei ler. Tocou-me lá no fundo. Maravilhoso. Obrigada pela sua visita. Bjs

    ResponderEliminar
  4. @fátima Obrigada eu pela visita :)

    @ana :D Obrigada pela espreitadela e pelo elogio :D

    Também vou espreitar o seu cantinho :)

    ResponderEliminar
  5. Gostei...

    Aproveito para deixar o endereço do meu blog http://viagemsemretorno.blogspot.com/

    ResponderEliminar
  6. "Suavemente, com a mesma delicadeza com que juntavas os teus lábios aos meus, tocas com o carvão na tela já manchada. Ponto a ponto vais construindo as curvas da minha boca "

    isto é belíssimo menina. arrepiei-me ao ler-te ( mais uma vez ) e gosto.

    ResponderEliminar
  7. Acabei de ler este conto na Nanozine, e adorei completamente! Cativamente do início ao fim ;) vou passar aqui mais vezes

    ResponderEliminar
  8. Obrigada Raquel :) O blogue anda um bocadinho parado mas prometo voltar em força ;)

    ResponderEliminar